JORGE DUARTE

DESIGNER DE COMUNICAÇÃO

Unusual 20, "i feel unusual" - Cada fibra

Poderia arrancar cada fibra que faz movimentar.

Poderia moer e desfazer cada pedra dos pilares e paredes brancas que me suportam.

Poderia tirar, cortar, estourar cada pedaço, membro e membrana de mim,mas não faria diferença.

Posso-vos dizer que quero que me desprezem, que me chutem, que batam, que cada toque seja como um copo que transborda, de ódio e raiva.

Que cada palavra perfure igual lâminas e espinhos onde têm de perfurar.

Que os meus gritos sufoquem-se no sangue que jurrar e cais que nem cascata na poça do sofrimentos, que o ar se perca e evapora no calor do julgamento, que cada lágrima leve cada mágoa escorrendo da minha cara, como gotas de chuva perdidas no vidro.

Embora não deixarei de sentir como eu, não deixarei de ser contra o autor do reflexo inevitável e permanente, das palavras proclamadas em tons baixos e trovoadas berradas, atos dramáticos a dramatizados, queixas birrentas e peçonhentas, pensamentos intrusivos nojentos e lamúrias das súplicas, tristes e frias.

Nem eu quero-me perto de mim e não sei se vos devo deixar tão próximos. Sinto-me fora de mim.


#1 Texto das Fanzine "OSCURO 1" para a Design Editorial II (LDC, ESAP, 2022)

A cidade por onde caminhávamos era negra. Olhávamos para o chão sem sabermos o céu de hoje ou de amanhã. Não víamos os candeeiros que nos iluminavam nas noites que saíamos, nas estradas que nunca pareciam as mesmas. Eramos desconhecidos. Tanto de nós. Tanto da cidade. O vento crescia e cada vez mais chovia.

Sintonizávamos o mundo á nossa volta. Eramos uma adaptação de uma realidade que mudava todas as noites. Do sonho que tínhamos criado num transe à noite, entramos em declínio e procurávamos razão para a nossa mortalidade. Criamos o suspense no mistério que é o mundo. Num vácuo, somos que nem peixe num aquário e afundamos numa banheira confusa e solitária.

As nossas memórias tornaram-se vagas. As manipulamos. Elas nos manipulam. Queríamos sair da cidade, ser livres. Queríamos recomeçar. Queríamos ir a caminho de uma nova terra. Deixaríamos a cidade pelo mar. A deixaríamos nas mágoas, crimes e amores.

Todos os dias a tua lembrança me arraça, mas não importa. Já não ligo se tudo der errado. E como aquilo que não se repete, não saímos mais na cidade. Daiane. Se fossemos ainda assim, onde iríamos parar? A barragem que criamos do mundo um dia ia partir. Íamos afundar. Não era mais o café dos ciganos que ia nos amortecer numa garrafa. A cada resposta que encontrávamos geravam mais dúvidas. Então não há solução. Daiane.

Pensamos que podemos manipular o mundo. Mas não.

Como podemos voltar?


#2 Texto das Fanzine "OSCURO 2" para a Design Editorial II (LDC, ESAP, 2022)

Aos poucos os estalidos trocam-se por ventanias e cada vez mais as ventanias trocam-se por brisas. Não sei onde estou. Sinto-me tão perdido, como se estivesse num deserto vasto sem fim, e não há caminho a seguir. Depois de tanto tempo lembro-me de algo. Uma memória vaga. Lembro quem era aquela senhora. Mas também já foi embora. De repente tudo para. Nenhum som. Silêncio. Não vejo mais a senhora. Não vejo mais nada. Não sinto o peso do corpo. Não sinto a cabeça.


#3 Texto das Fanzine "OSCURO 3" para a Design Editorial II (LDC, ESAP, 2022)

Na garganta agulhas furam a voz. Arranhando o esófago e das veias saem os glóbulos do meu sangue. Como o sangue foi consumido pelas sombras das agulhas, o meu sangue é negro, e cuspo-o. O resto da poça negra na garganta sobe, vai para a boca, e desce pelo lábio como uma cascata. Pinga como goteira pelo queixo. A minha voz arranhada, furada, negra, puxa o ar para rir, e do riso sai o resto do sangue. E rio bem alto. O sangue vai para o ar como um espetáculo de água numa fonte. E rio.


Poema - Café nas mãos (2020)

Tenho café nas minhas mãos

E tento encher o vazio

Tenho café nas minhas mãos

E o meu quarto está vazio

Tenho café nas minhas mãos

E o céu como a minha cabeça

Não apresenta vazio

Não tenho mais café nas minhas mãos

E como o vento que toca a minha cara

Deixo-me sentir o frio

Agora tenho um copo de whisky

E queimo a minha garganta

Para tentar dar um grito

Não tenho nada nas mãos

Nem na cabeça

E sinto o vazio


Poema - Velho que fumava (2020)

Hoje vi um velho que fumava

Estava de Fato

Casaco azul, camisa branca

Gravat vermelha presa ao pescoço

Calças cizentas, sapatos de couro preto

Gaurda-chuva no pulso esquerdo

Que se encontrava no volso do casaco

A outra mão ia e vinha

Com o cigarro beija a nicotina

E cuspia o gozo do cigarro

Olha para o canteiro aos seus pés

Com uma árvore fina

Mas não muito alta

Olha melancólico para a flora

E fumava.